RattapallaxRattapallaxBuyEvents and ReadingsAboutOrderingFilmsRattapallax MagazineBlogUN and GlobalJoin Our Email ListBrazilIndiaLatin AmericaPodcastFree DownloadsLitwalksDonate to Rattapallax

Livros/Palavras em revoada transatlântica

Correio da Bahia

Sandro Lobo

A revista americana de poesia contemporânea "Rattapallax" articula novos nomes no Brasil e nos EUA

Flávia Rocha

A poeta e jornalista brasileira Flávia Rocha, co-editora da "Rattapallax": trabalho de garimpagem e intercâmbio entre criadores

Na sua Biographia literaria, o poeta romântico e crítico literário inglês S. T. Coleridge (1772-1834) escreveu: "Um transmite os mais fantásticos pensamentos na mais correta e natural linguagem; o outro, na mais fantástica linguagem, comunica as mais simplórias reflexões. Este é um enigma de palavras; aquele, um enigma do pensar" (a tradução é minha).

Em se tratando de poesia, há sempre uma idéia de sentido e algumas verdades mais universais. Coleridge se referia, em seu exercício de crítica, estritamente à questão da linguagem poética, que ele e William Wordsworth (1770-1850) pretendiam que deveria ser o mais próxima possível da linguagem do homem e da mulher comum, "conservada sem manchas na fala das pessoas do campo".

Naturalmente, nem todo o mundo pensa assim e a poesia tem que reencontrar sempre seu (des)caminho, seja qual for o idioma, seja qual for o "estilo", importando mais seu cronos que o topos. Essa parece ser também uma das crenças que movem o pessoal por trás da bem-acabada revista literária Rattapallax, que chega ao seu número nove apresentando trabalhos de qualidade de poetas brasileiros e norte-americanos, sejam como "enigmas do pensar", sejam como "enigma de palavras".

Editada há quatro anos em Nova York, Rattapallax teve seu nome retirado do belo poema Frogs eat butterflies. Snakes eat frogs. Hogs eat snakes. Men eat hogs (Wallace Stevens, 1879-1955) e é uma onomatopéia para o som do trovão. A cada semestre, um novo número é lançado, garimpando e permitindo intercâmbio cultural entre novos artistas de vários países e gerações.

O novo número - já à venda no Brasil, onde a editora 34 é parceira no projeto - traz uma amostra do que tem sido produzido por poetas considerados "emergentes" e outros com uma trajetória já estruturada, através de novas revistas literárias e de pequenas editoras. "O objetivo não era traçar semelhanças, ou criar uma idéia de geração, mas mostrar a variedade temática, as particularidades lingüísticas de cada poeta, de forma a alargar - e não reduzir - o campo de visão da poesia contemporânea brasileira", explica a jornalista, tradutora e poeta Flávia Rocha, que edita a publicação ao lado do norte-americano Edwin Torres.

Para a brasileira, o mais relevante no resultado da publicação é o grau de complexidade, controle e de refinamento da linguagem e a facilidade com que esses poetas manipulam idéias. "São poemas que parecem simples ou compostos, diretos ou indiretos, e que exercitam, sem regras pré-estabelecidas, as mais diversas referências e estilos", avalia. De fato, dizer quem entre esses poetas se destaca mais é uma tarefa inglória. Chamam a atenção, no entanto, os nomes de Fábio Weintraub, Fabiano Calixto, Dirceu Villa e Ruy Proença (autor do belo poema Varanda, em que escreve: "uma tempestade de diamantes/ arremessará suas flechas/ sobre o Estreito de Magalhães/ Exatamente assim/ passará um milênio").

Global - Rattapallax publica poesia de diversos países, fazendo um trabalho de prospecção e servindo para aproximar poetas de várias partes e estimular uma troca de experiências. "De um lado, fazemos um trabalho de garimpagem; de outro, um intercâmbio entre poetas e tradutores de diversas línguas. Poetas publicados em revistas de circulação internacional, como a Rattapallax, têm, de fato, uma boa projeção, considerando os padrões do mundo da poesia, que não é vasto em nenhum país. Mas é o suficiente para criar um debate, para lançar novos nomes, para chamar a atenção dos grandes editores. E, principalmente, para criar um diálogo entre poetas de diferentes países, fomentar novos projetos, colaborações, etc".

Segundo Flávia, a Rattapallax chega semestralmente às prateleiras das maiores livrarias americanas, em todos os estados. A estratégia de divulgação inclui uma série de eventos e leituras organizadas pela editora Rattapallax Press, que está aplicando a mesma filosofia no Brasil. "Estamos programando um grande evento em São Paulo para o segundo semestre, por exemplo. Algumas revistas literárias no Brasil têm cumprido essa função de divulgação no mercado editorial nacional, e algumas com extensão internacional. Elas têm não só trazido novos poetas à tona, como produzido importantes ensaios sobre literatura, e publicado traduções de alta qualidade", afirma a jornalista, que reside em Nova York e faz pós-graduação na Columbia University.

"Sou a única brasileira no meu curso, e a única estrangeira que não tem o inglês como língua materna. Isso faz com que eu seja vista como a ''poeta brasileira'', e eu entendo a responsabilidade que esse título me traz. Sempre que posso, procuro infiltrar poesia brasileira nos debates. Estudo criação literária, ou seja, composição poética: analisamos, desmembramos, viramos do avesso poemas para saber do que são feitos, e depois tentamos colocar todas as peças juntas de novo, por conta própria", explica. Além de editora da Rattapallax, Flávia é colaboradora do site Words without borders ("Palavras sem fronteira") e de uma revista de poesia em tradução chamada Circumference.

O publisher Ram Devineni, que coordena todos os programas e parcerias da editora Rattapallax Press, destaca que o mercado de poesia nos Estados Unidos não é tão grande, mas ainda é muito maior que na maioria dos outros países. "Outra característica importante desse mercado é que os americanos tendem a acolher todos os tipos de poesia. Na América, a poesia é marcada por princípios democráticos e de diversidade, não há uma escola de estilo. A Rattapallax abraça esses princípios e tenta dar uma abordagem global a eles", explica.

<more press>