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Poesia, fezes és

Edição de 25 poemas de Bukowski e lançamento da revista Rattapallax 9 repõem no balcão a pergunta: que merda é essa tal de poesia? – por Ronaldo Bressane

[22/04/2003] Volta e meia acusam o cara de amadorismo ou de viver às custas da própria lenda. “Bukowski chamou atenção por causa do pseudocharme de outsider pinguço. Na verdade, um chato que abusa do direito de ser chato e estende a monotonia dos porres e da imaginação rasa, impotente, aos textos que às vezes podem ter até algum efeito, como nos contos, algo mais raro nos poemas desse livro”, escreveu, sem amaciar, o poeta e crítico Moacir Amâncio, no Estadão de 20-04. Uma crítica academicista, do tipo que sempre atingiu os beatniks por seu demasiado apego à experiência como modeladora da arte, em detrimento à literatura furtivamente escrita entre estantes, medida sob o bisturi dos poetas-cientistas que usam luvas de borracha pra separar seus versos. Alguns escrevem com cérebro. Buk escrevia com o estômago, o pau, o coração, os intestinos. De vez em quando, usava as mãos.

Amâncio tem certa razão. Fato é que Bukowski é de uma auto-complacência atroz. Seus versos, confessionais ao extremo, fingem a dor do bêbado que deveras sente a dor de morrer de cirrose em praça pública. É autocomiseração demais pra com o mundo loser. Buk molha um verso aqui numa vodca, queima outro ali numa guimba. Reclama da falta de dinheiro. Reclama que nenhuma editora quer publicá-lo. Historietas sórdidas, traições, safardinagens, fixação na morte, lamentos de des ou subempregados, piadas sujas, palavrões. Há uma revolta aberta contra o intelectualismo, uma espécie de ressentimento de quem não freqüentou as melhores escolas ou faculdades. Muitos versos são contaminados de rancor. Mas ele fala carinhosamente de cavalos e, quase tão amoroso, de mulheres.

Fácil atacá-lo por ter feito fortuna com a própria miséria. Como se lê na excelente bio de Howard Sounes, Vida e Loucuras de um Velho Safado [Conrad, 2001], Buk passou os últimos dias de vida numa boa, amealhando dólares e melhorando a qualidade de seu goró enquanto lia os versos escritos na época das vacas magras.

[Digressão: bom, pelo menos ele não fez lucro com a miséria dos outros. Esses dias, pegando o jornal, vi um anúncio de página inteira do filme Carandiru. O titulo era "Parabéns! Columbia Tristar, Sony Classics e Globo Filmes parabenizam Hector Babenco, equipe e elenco pela fantástica abertura do filme Carandiru. Em apenas 3 dias: 468.293 espectadores". O paradoxo entre a grande foto dos fodidos de cabeça baixa e o número garrafal encimado pela congratulação me faz pensar em má-fé ou no mínimo falta de senso de noção. Me deu vontade de xerocar o anúncio e mandar pros presídios: olha aí, seus cu-de-burro, que beleza a vossa contribuição para a sociedade e para a Columbia, a Sony e a Globo. E vocês nem viram o filme, seus trouxas.]

“I CANNOT RHYME”

Voltando: um tanto por fidelidade ao próprio mito e um tanto por preguiça, em seus escritos, o vagal – nascido na Alemanha em 1920 e morto em 1994 nos EUA, país que habitou desde os 2 anos – deixa de explorar uma série de recursos da linguagem. Que é quase pobre, na verdade. Antes busca uma não-artificialidade, como se os versos tivessem acabado de escapar da vida, ainda meio sujos de lama e sangue. Não há a menor preocupação com a sonoridade das palavras – a não ser a adequação ao prosaísmo, à coloquialidade, à falta de cerimônia. Buk acharia poesia concreta coisa de viado. Igualmente chutaria as bundas gordas dos parnasianos. E talvez também mijaria na cabeça oca de outros poetas marginais – pois todo marginal sabe que, apesar de a rua ser pública, a briga pelo espaço à sombra das latas de lixo é violenta: todo pé-sujo vê a sombra de Deus refletir-se nas águas de sua exclusiva sarjeta. A beatitude na desgraça ["sou um gênio desconhecido"] é tema recorrente para quem vive do lado de fora de clubes esportivos, religiosos ou intelectuais, sejamos honestos.

Preso ao chão da linguagem, Bukowski não está interessado em labirintos rítmicos, metáforas visuais complexas, elipses, pausas, idéias condensadas em versos curtos, citações a poetas obscuros, intertextualidade, poesia visual, e em, três vezes argh, metalinguagem. Sob este aspecto, Buk é um reacionário de si mesmo: prega poesia à antiga. Seu ídolo é Walt Whitman, a grande voz americana que estende versos como lençóis no varal, planícies na paisagem. Assim, sua poesia sempre fica melhor em voz alta que no sussurro do cérebro ou ali no recôndito da retina. Não pela melodia, pelo ritmo, pelo timbre. Mas pelo senso de comunicação imediata, sem rodeios, como quem conversa com o garçom no balcão, numa dinâmica espontânea, vivaz. Aquáticos como o borracho poeta, seus versos são fluidos, escorregadios, não cabem em formas fixas, sugerem chuvas, dilúvios, tempestades de uísque em copos d’água, hemorragias, gotas de mijo, pingos de porra, vômitos, lágrimas, perdigotos.

ANGELS,/ WE HAVE GROWN APART”

Você poderá perguntar: mas o que faz este uísque ser bom? Há milhares de poetas por aí que saem contando seus perrengues em público fazendo péssima poesia. Talvez, não tenham o generoso humor de Buk. Nem seu dom de surpreender, como o boxeur que dispara um gancho de esquerda depois de um cruzado de direita. O anacoluto – brusca mudança de assunto – , assim como a iluminação súbita vinda sobretudo não de uma abstração, mas de uma aparição imagética, é uma de suas grandes qualidades – e qualidade raramente atingida por poetas de laboratório pré-fabricados na fôrma da l=a=n=g=u=a=g=e ou na do Concretismo. Como no belíssimo “Muito” (que traz sua profissão de fé: “A derrota veio tantas vezes/ (como a chuva)/ que ganhou mais significado/ que a vitória”) ou em “Os cisnes passeiam por meu cérebro em abril chove”:

"a prisão varre o passado iluminado por
olhos. olhos? magma!
entro numa loja e compro bebida a um
homem morto
depois saio sob um céu transbordante
de pus. os caçadores tossem
nos bancos do parque."

Sim, raramente há em Bukowski aquele verso único, aquela frase exata e inesquecível, assobiável até, aquela comparação ou metáfora que faz o verso ultrapassar o campo do coloquial e entrar no reino das grandes idéias ["eu é um outro", "melhor morrer de vodca que de tédio", "perdi o bonde e a esperança", etc]. Não. Buk quer que as coisas permaneçam no chão, ao alcance, meio malfeitas. É uma pena que não tenha se auto-editado melhor. Quando une sua angústia de perdedor à sobranceria do homem que se orgulha por se apartar do resto do rebanho, controlando e cadenciando sua torrente de versos, Buk chega lá. Mesmo quando "chegar lá" signifique, quase sempre, não chegar em lugar nenhum. Como neste poema desentranhado do seu recém-lançado [aleluia, a Brasiliense se mexeu] romance Cartas na Rua, cuja estrofe final vale por uma dúzia de manifestos e pendengas e abaixo-assinados literários:

POEMA DOS MEUS 43 ANOS

Terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida –
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto

...de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi...

e você se vira
para o lado esquerdo
pra pegar o sol
nas costas
e não
direto nos olhos.

SE VIRA

Os 25 melhores poemas de charles bukowski
Tradução: Jorge Wanderley
Bertrand Brasil
170 págs.
R$ 32

RATTAPALLAX 9
Rattapallax Press
Editora 34 [editora34@uol.com.br]
112 págs. + CD
R$ 23, US$ 7.95

“WE GAVE THEM/ BETTER THAN THEY ASKED”

À parte a excelente tradução do poeta e ensaísta recifense Jorge Wanderley – morto em 1999, sua tradução de Bukowski, bem como a do Inferno, de Dante [ele também traduziu Shakespeare, Borges, Sylvia Plath e Lawrence Durrel], foi das últimas coisas que produziu, ao lado de sua pouco conhecida obra poética, que inclui O Agente Infiltrado –, não se pode deixar de ressaltar o insólito em ver um vagabundo desses tão bonitinhamente editado. Bilíngüe, reserva de verniz na capa classuda, papel pólen, orelhas "comovidas" by Helena Ortiz [que escreve coisas como "alucinada humana essência"]... isso tudo talvez fizesse corar o velho Buk. Porém, diria o 30, quem gosta de miséria é intelectual, minha nega. Pobre gosta é de luxo.

"AND, INDEED, DO YOU EXPECT TO FIND/ POETRY/ IN A POETRY REVIEW?"

Como você deve ter percebido, sou um péssimo leitor de poesia, não tenho a menor vergonha em escrever feito um impressionista destrambelhado anotando desconjuntadamente idéias, sensações, intuições. Sem querer fazer charme, isso é mais pouco estudo que muito estilo. Talvez por isso não saiba informar com a necessária acurácia crítica o lançamento do nono número da revista novaiorquina RATTAPALLAX, em edição que traz a nova poesia brasileira e norte-americana. Mas meu trabalho é divulgar, bem ou mal; então vamos nessa.

Sim, falta uma porrada de gente na revista [paulistas demais?], muitos pra variar se sentirão enciumados por ficar de fora de edição tão bacanuda, e o termo “nova poesia” é mais velho que andar pra frente. A publicação me pareceu, contudo, bastante representativa das variadas igrejinhas, digo, vertentes da poesia feita hoje [me restrinjo à brasileira; não tenho cacife pra falar da americana]. A revista serve também como uma “revista das revistas”, já que reúne uma penca de editores de magazines literárias. Seleciono a seguir uns trechos bem arbitrários. Devo dizer que as logomarcas que estampo nas testas dos poetas são aproximativas: tendem a resumir, por certo ineptamente, a poética de cada um, e indicam a rasa abrangência crítica deste colunista. Não confie em rótulos – de cerveja, de poesia – nem em colunistas; muito menos em poetas. Amor, só de mãe.

CACTO, SEBASTIÃO, AGULHA

Tem na Rattapallax os partidários do minimalismo mezzo concreto mezzo Language, de que se sobressai Tarso de Melo, editor da intelectualizada revista Cacto [": talvez bala, talvez atrope-/ lamento – jornais sobre o sangue/ e o céu de sábado/ à tarde/ imperfeito adere ao asfalto”]. Na mesma chave, mais leve, Fabiano Calixto [“um menino me dá um tiro./ imaginário./ calibra os passos./ dispara risadas./ eu: vivamente morto:/ respiro./ na biblioteca à/ leitura do jornal/ meninos (outros)/ anoitecem/ em notícia."]. E o desencanado cabralismo do editor da Sebastião, Paulo Ferraz ["como ainda a/ mente cai na mesma/ mentira de sempre/ que ela pra si inventa?"].

Mais: os editores da Agulha, Floriano Martins e seu surrealismo adjetivista ["Sons de palavras: letras que surgem/ do obscuro ritmo entrelaçado de nossos nomes/– do entreato da sagrada miséria às minúcias de nossa queda, / a um só tempo dialética e mundana"], ecoado por seu colega Claudio Daniel ["O mar – floresta sinfônica, seminal – verde lume – metáfora insidiosa da eternidade, num círculo de águas"].< p class="s">CÁLAMO E CAETANO

Comparecem o "lirismo disciplinado", como já indicou Manuel da Costa, de Claudia Roquette-Pinto ["é preciso/ que se arranque toda a face/ deixar que os olhos descansem/ lado a lado com os sapatos/ na camurça oscilante/ de um quarto"]. O cortante Rique Aleixo, sempre matador ["Amor, / filamentos, partes do sol/ rebatem no musgo./ Você para sempre longe/ esta manhã, ontem./ Meus olhos sem pálpebras/ parem um mar plano"]. E a dicção grave e precisa de Donizete Galvão ["Da pedra ser./ Da pedra ter/ o duro desejo de durar"].

Há o drummondismo de integrantes do grupo paulistano Cálamo, como Chantal Castelli ["Tento recompor/ a memória prévia/ o tempo duplo,/ a casa em chiaroscuro,/ no papel que/ (mesmo querendo)/ não posso rasgar"], de que também fazem parte o surreal contidamente murilliano de Ruy Proença ["a lua investirá com seus chifres/ e as cebolas no escuro despertarão/ o olho do coração"] e o talvez mais maduro poeta desta revista, o exato e melancólico Fabio Weintraub ["A corda bamba no céu revolto;/ o pé adivinha vidro no ar dos gritos/ Há sinais de incêndio ou borrasca/ e escadas de quando em quando/ (toda queda é quieta)"].

Ainda: poemas da própria editora da revista, a bela Flávia Rocha, Arnaldo Antunes, que você está careca de conhecer, Jussara Salazar, o citado lá em cima Moacir Amâncio, Dirceu Villa, Rodrigo Febrônio, Neuza Pinheiro. Um CD acompanha a revista, com poemas lidos pelos próprios poetas [algumas leituras francamente amadoras: o pessoal precisa aprender a ler com o Glauco Mattoso e também com seus colegas norte-americanos, que dominam muito melhor essa área] e faixas de artistas como Bebel Gilberto, Zuco 103 e Caetano Veloso [sim, sempre ele, o intrometido] – nada inédito, mas talvez um bom chamariz para leitores norte-americanos.

COYOTE, MEDUSA, CIÊNCIA DO ACIDENTE

Já que começamos falando de Bukowski, fechemos a fatura no set beat da revista, com os editores da Coyote: Rodrigo Garcia Lopes e sua escrita espontânea ["O rio tremia na membrana, na mente do brâmane, na escama da penumbra, na pompa da alma: um gelo; uma prise revela vales espessos – aromas de morte: cristais... A vida se exila aqui, líquida..."], e o xadrez místico de Ademir Assunção ["o artista/ saltimbanco na tempestade/ arde em visões/ mas não pode explicá-las/ rei encurralado/ a guerra e a linguagem/ nada podem/ diante do xeque-mate"], ladeados pelo velho compadre na edição da finada Medusa, Ricardo Corona, e sua sinestesia leminskiana ["no cine Céu/ a sessão inicia pelo fim/ (o rubro horizonte nubla de repente)/ barbatanas no céu anfíbio/ guelras no céu íntimo"].

Na paralela, o editor da Ciência do Acidente e também designer da Coyote, Joca Reiners Terron, e sua grave e enciclopédica psicodelia. Passo a régua reproduzindo inteiro um poema do colega colunista – só porque acho realmente ducaralho essa tensão entre rigor visual [que faveliza concretamente o verso], ritmo e léxico [que fazem do poema uma máquina de raras rimas internas], e esplendor imagético [que o verticaliza do subterrâneo ao céu]. Como diria o velho Buk, sujo e sublime podem ser vizinhos, merda.

Cara-de-Cão

Aqui
entre
as lajes
deste
shopping
Xolotl
conduz
seu carro
na garagem
do cemitério
vertical

Aqui
sobre
este
viaduto
Cinocéfalo
guarda o
acesso
ao Vapor

Aqui
neste
canteiro
de obras
soldado-
macaco
Cara-
de-Cão
tranca
a porta
do morro

As uzi
jorram
luz e

a noite
um manto
furado

por balas
perdidas

(ou seriam
estrelas?)

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