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Trecho
das revistas de poesia Sibila e Rattapallax
Maria
Elisa Costa
Revista
Sibila
SÃO
FRANCISCO, O RIO E OUTRO
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Conheci
o Velho Chico há muito tempo, na sua foz, entre o Penedo
e Piaçabuçu. Largo, generoso, cor de doce de leite,
com suas pequeninas canoas de velas quadradas. Dono
e senhor do território. Depois, foi Pirapora, com águas
verdes. Passadas as últimas corredeiras, ele se deixa
navegar - navegar é preciso. Mas não se navega mais.
Os barcos que um dia souberam agradar sua benção, hoje
são restos de estruturas de madeira, parados na margem
- no espaço e no tempo. Na barra do Guaicui - o Rio
das Velhas, que vem lá de Belo Horizonte - a ruína sem
telhado de uma capela jesuíta; isolada num promontório
debruçado sobre a água, teve seu altar-mor substituído
pelas fantásticas raízes de uma imensa gameleira - a
árvore do Tempo - como que dizendo e repetindo para
ninguém a vocação para renascer daquele rio. Entre Juazeiro
e Petrolina, cede suas águas para irrigar propriedades
produtoras de belas frutas que serão consumidas muito
longe dali - mas que não são usadas para molhar a terra
do comum dos mortais.
E
a cachoeira de Paulo Afonso, de que a gente se orgulhava
tanto no tempo de colégio! Tão desafiadora e altiva,
poderosa, soberba, revelando súbita e inesperadamente
toda a energia daquela massa de água que até ali seguia
seu curso discretamente, e naquele ponto se permitia
explodir, extravasar-se, romper a aparente mansidão.
Mas a força da energia daquele rio solitário não foi
percebida no seu verdadeiro alcance. Tiraram-lhe o sangue,
voraz e violentamente, para produzir apenas energia
elétrica, em corações artificiais enormes, desmedidos.
Manipulou-se
o território com a assustadora desenvoltura de deuses,
afogara-se vivos povos ribeirinhos e terras férteis
de aluvião. Lá em cima da gigantesca barragem, a lancha
corre veloz sobre uma vida submersa, retirada do mapa.
No sopé da muralha, resta - no que um dia foi um alto
- o pequeno cemitério quadrado da Canindé original.
Dá-se prova de grande competência técnica e construtiva,
em nome do necessário progresso - só que dele só chegam
migalhas ao endereço que devia ser a razão da sua existência.
São milhares de megawatts, belos postes de transmissão
com fios de alta tensão que partem em várias direções
sobrevoando as localidades adjacentes onde as pessoas
comuns ainda não dispõem de luz elétrica.
E
no local da cachoeira original - aquela massa de água
viva se libertando com estrondo da contentação do longo
percurso bem comportado - hoje, na pedra seca, impera
o silêncio da cachoeira morta: tudo vai para o coração
artificial, que às vezes se dá ao luxo e ao direito
de permitir um 'replay' do antigo esplendor para alguma
festa, assegurando a possibilidade de manter a imagem
e fazer de conta que a verdade é outra. No início do
baixo curso, o pequeno porto de Piranhas permanece,
como que à espera não se sabe bem do que, testemunhando
tempos idos de estradas de ferros e caminhos de água.
Ainda se lava roupa na beira do rio, mulheres fazem
renda em Entremontes, passam raras canoas. Conta-se
a história de Lampião, acaricia-se as lembranças, que
são o único alimento disponível.
Uma
vez, voltando do Belém para o Rio ao amanhecer, olhei
da janela do avião e vi, lá embaixo, uma fita cor de
rosa salmão refletindo a luz do sol nascente, contínua,
solitária, definitiva. Era ele, o São Francisco. E lá
vai ele, com sua alma sertaneja, fiel a si próprio,
fluindo sempre, na sua sóbria e contida resistência
de fera ferida. E continuará a fluir, até que seja exaurida
a última gota. Morrerá de pé, como quem sabe e tem consciência
da sua verdade e da sua razão de ser.
O
São Francisco é o Brasil.
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A
poesia pula o muro
A revista americana Rattapallax ganha publicação no
Brasil. A última edição traz versos de poetas londrinenses
e curitibanos
NELSON
SATO
Folha
de Londrina, 08 de maio de 2003
A
poesia contemporânea brasileira anda em alta. A novidade
da vez é o lançamento da revista ''Rattapallax'', publicada
em Nova York e que a partir de agora ganha distribuição
no país pela editora carioca 34. O número de estréia
em prateleiras tropicais traz uma coletânea bilíngue
reunindo autores norte-americanos e locais, além de
um CD com os textos oralizados pelos participantes.
''Rattapallax''
circula há três anos com periodicidade semestral. O
título é uma onomatopéia para o som do trovão e foi
emprestado do poema ''Frogs Eat Butterflies. Snakes
Eat Frogs. Hogs Eat Snakes. Men Eat Hogs'', de Wallace
Stevens. Entre os autores nacionais contemplados nesta
edição estão Arnaldo Antunes, Claudia Roquette-Pinto,
Joca Reiners Terron, Tarso de Melo e Donizete Galvão.
Uma
seção destinada a compositores destaca Caetano Veloso,
Bebel Gilberto, Arto Lindsay e o ainda desconhecido
grupo Zuco 103. O bloco dos americanos inclui nomes
como Willie Perdomo, Anselm Berrigan, Juliana Sparh,
Elizabeth Alexander e Jena Osman. Do Paraná, marcam
presença os curitibanos Ricardo Corona e Jussara Salazar,
além dos londrinenses Rodrigo Garcia Lopes, Neuza Pinheiro
e Keila Alaver (esta assinando o visual da contracapa).
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O
paulista Ademir Assunção, que estudou e trabalhou durante
a década de 80 em Londrina, também foi escalado. A antologia
inaugura uma seção fixa de poesia verde-amarela nas
páginas da revista, que passa a trazer regularmente
contribuições de artistas, poetas e escritores brasileiros.
O intercâmbio, trivial para os editores da publicação,
vem desde os primeiros números com a veiculação de poemas
oriundos dos mais diversos países. ''Rattapallax'' é,
na verdade, apenas um dos projetos desenvolvidos pelos
editores Edwin Torres e Flávia Rocha. Eles atuam também
junto à ONU e à Unesco na programação de eventos ligados
ao Dia Mundial da Poesia. No ano passado, organizaram
leituras no topo de vinte montanhas para celebrar o
''Ano da Montanha'', criado pela Organização das Nações
Unidas.
Torres
é autor do livro ''The All-Union Day Of The Shock Worker''
e do CD ''Holy Kid (Kill Rock Stars)''. Flávia Rocha
é jornalista com passagens pelas redações das revistas
Bravo! e Carta Capital. No texto de apresentação de
''Rattapallax'', ela enfatiza o viés emergente dos poetas
elencados assinalando ainda que ''há mais pontos em
comum entre as várias obras do que diferenças''.
''O
mundo é um só, e no quintal dos achados-e-perdidos,
todos os movimentos e as referências se misturam'' anota.
Embora de matriz novaiorquina, a proposta editorial
filia a revista ao boom de publicações literárias que
sacode o país há pelo menos 5 anos e que abrange títulos
como ''Coyote'', ''EtCetera'', ''Ácaro'' e ''Inimigo
Rumor''. São através delas que os leitores poderão entrar
em contato com a nova poesia brasileira. ''Rattapallax''
traz 112 páginas e 22 poetas. Chega às prateleiras a
R$ 23,00.
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