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Balacobaco
ano VI - número 61 - Rio de Janeiro, 6 de abril de 2003.
ENTREVISTA
COM FLÁVIA ROCHA
Flávia Rocha por Flávia Rocha
Tenho
28 anos, moro em NY há dois anos e meio, sou casada
com um americano, vivo estudando, escrevendo matérias
e fazendo entrevistas para a imprensa brasileira, editando
uma antologia de poetas brasileiros e outras coisinhas,
fazendo umas traduções e realizando um estágio na editoria
de poesia da revista The New Yorker, o que tem sido
uma experiência maravilhosa. Tenho tido a oportunidade
de encontrar e ir a leituras de muitos poetas interessantes,
maiores e menores (o Matias Mariane também deve ter
muito para falar sobre
isso. Eu o conheci numa festa da Sibila no bar KGB,
no East Village).
Trabalhei (e ainda trabalho) como jornalista no Brasil:
repórter para Casa Vogue, Carta Capital, República e
Bravo! e free-lancer para Vogue, Casa Vogue (sempre
continuei escrevendo para eles), revista da MTV, caderno
de cultura do Valor Econômico, Cult.
Aqui entrevistei gente como Alanis Morrisette, Paul
Auster, Michael Cunningham, John Ashbery, Billy Collins
e pretendo fazer mais entrevistas, assim que eu me formar
e tiver mais tempo.
B
- A solidão é um fantoche pendurado no galho?
O poeta precisa da solidão para escrever?
FR - Toda atividade literária é solitária,
no sentido mais abrangente possível da noção de solidão.
É uma atividade autocentrada, a partir do ponto de vista
do autor (não necessariamente sobre o autor). Poetas
tendem a valorizar suas experiências de infância, aproximar-se
de um estado pré-consciente, auto-referente, narcisístico
até, em que a vida é experimentada pelo corpo e pela
alma, simultaneamente (falo de corpo/alma como símbolos
do físico/psíquico, não no sentido religioso). Na vida
adulta, nossas inibições causam, supostamente, uma ruptura
entre corpo e alma — uma idéia freudiana. Em "Songs
of Innocence and of Experience", Blake nos dá uma idéia
do que é esse paraíso infantil, por que todos nós passamos
(e depois deixamos), e que um dia nos permitiu o contato
direto com o mundo natural e físico. Quando me refiro
ao fantoche, e aos vestidos minúsculos, refiro-me a
esse estado solitário ideal, encontrado somente na infância.
Nossa percepção do mundo é o mundo que nosso corpo/alma
sente. Nossa relação com o outro é limitada ao que o
outro nos representa e nos acrescenta. Isso soa como
uma concepção altamente narcisística, mas é possível
que seja verdade: o poeta é um fingidor, nós já sabemos.
Ao fingir-se outro, reinventa-se. O processo é sempre
autocentrado. Quando o poeta deixa de ser poeta — várias
vezes durante o dia — torna-se uma pessoa sociável.
B
- Há muitos troncos de árvores atravessados
em sua poesia? Qual a metáfora possível para estes troncos?
FR - Talvez seja o símbolo de uma morte
inocente, inexplicável. Para mim, um tronco cortado
— a solene morte de uma árvore — é uma imagem profundamente
triste, um sentimento de perda irreparável. Tronco também
representa experiência e história. Todas as camadas
que se formam ao longo dos anos, maciças, que registram
a idade de cada árvore. Uma vez, quando estava no colegial,
meu professor de redação pediu que escrevêssemos um
texto narrado sob a perspectiva de um cajueiro. Foi
uma das experiências mais reveladoras que já me aconteceram,
como se tivesse me sido mostrado um atalho, uma fórmula
de comunicação com o mundo natural. Eu precisei ver
com olhos de cajueiro e sentir o que cajueiro sente.
Eu entendi perfeitamente o que significa escrever ficção.
Tudo o que escrevo é ficcional, algumas vezes com base
no real, como o poema que você menciona, "Casa dos Avós".
Meus avós, que não cheguei a conhecer, moravam no Vale
do Ribeira, em São Paulo, uma área de floresta. Uso
um pouco desse imaginário, das histórias de infância
do meu pai, das árvores que não conheci pessoalmente.
B
- A natureza é um elemento muito forte da sua
poesia? Qual a função de uma imagética naturalista para
uma poética?
FR - Existe essa obsessão de poetas
líricos pela natureza… Eu me vejo, muitas vezes, tentando
escrever algo mais urbano, concreto, desconstrutivista,
tentando explorar as possibilidades estilísticas e conceituais
mais facilmente associadas à poesia contemporânea. Mas
sempre retorno à natureza, quase contra as próprias
forças, já que nasci e cresci em centros urbanos. Ainda
não consegui explorá-la de uma maneira mais satisfatória,
energética. Há muitos poetas contemporâneos que o fazem
inteligentemente. Eu continuo tentando. Talvez seja
o peso da tradição, a carga intuitiva, simbólica, metafísica
envolvida. Talvez seja o silêncio. É onde está o silêncio.
B
- Por que escreve poemas em inglês?
FR
- Estou tendo um longo namoro com a língua,
que está presente no meu dia-a-dia. Sou casada com um
americano, além de estar cursando um mestrado em criação
literária, em inglês. O mestrado é, naturalmente, uma
experiência no fio da navalha. Ainda não sei se é possível
escrever em outra língua que não a nossa língua nativa.
Estou buscando respostas, arriscando muito. Por enquanto,
posso dizer que tem sido um exercício estimulante. Muito
se perde, muito se aprende. Meus poemas em inglês são
experimentos. Sou facilmente surpreendida na língua
inglesa. É como andar numa rua escura, sem meus óculos
de grau.
B
- O poema "O Rio" tem duas vozes: a tangente,
o epicentro. O que tangencia o epicentro? Fale-nos sobre
o poema.
FR - Quando comecei a escrever "O Rio",
há aproximadamente um ano, esta era a única noção que
tinha do que viria a ser: um poema em dois movimentos:
um periférico, tangencial, e outro essencial, central.
Escolhi o termo "tangente" (sempre fui fascinada por
essa idéia matemática, altamente poética), partindo
do princípio de que, a certo momento, precisa haver
um contato, um ponto tangencial entre essas duas esferas
de atuação. Todos os pequenos detalhes periféricos do
nosso cotidiano tangenciam nossas principais atividades
e preocupações e interferem no modo como levamos as
nossas vidas. O acúmulo desses detalhes ajuda a definir
o caráter do que entendemos como relevante, aquilo que
forma a nossa história. Já o termo "epicentro" carrega
a idéia de movimento, de força, de atividade sendo gerada,
o que me parecia fundamental na discussão que eu estava
propondo. Ritmicamente falando, eu queria que fosse
um poema sem muitos altos e baixos, sem drama, que corresse
como um rio de águas tranqüilas. Estava mais interessada
num texto impressionista do que filosófico ou dramático,
um texto que fundisse o natural e o urbano, sem realçar
o contraste entre os dois universos. Acabei escrevendo
um poema fragmentário, com uma vaga narrativa dando
a continuidade ao fluir do rio. Provavelmente, quieto
demais…
B
- No poema "Bailarinas" você cita Nabokov. Quais são
as suas influências literárias?
FR
- Sou uma leitora voraz de romances, principalmente
do século 19 e começo do século 20. Não perco um filme
de época. Mas, falando mais seriamente… considero-me
autodidata. Cursei jornalismo, que não enfatiza literatura.
E estou ainda tentando recuperar tempo. Lembro-me de
ter lido, por conta própria, na época de faculdade,
os cânones: Balzac, Proust, Mann (Morte em Veneza está
sempre nos meus pensamentos), Checkov, Stendhal, Kafka,
Cortázar, Joyce, entre outros. Li Nabokov (Lolita é
outro livro que não me deixa) mais atentamente em aulas
da Columbia University — aliás, para o poeta e tradutor
Richard Howard, com quem tive aulas sobre Nabokov (Howard
foi aluno de Nabokov), Lolita é o maior romance escrito
em língua inglesa do século 20. Ele tenta convencer
todo mundo disso. Acho que me convenceu. Gosto de ler
peças teatrais e, naturalmente, poesia. São muitos os
poetas. Em português, Drummond, João Cabral, Quintana,
Pessoa são adorados, muitos outros amados. Em inglês,
Whitman, Stevens, Bishop, Rossetti, Dickinson, Ashbery…
Em outras línguas, Lorca, Milosz, Szymborska, Montale…
B
- Perguntas sobre o cotidiano: fale um pouco
do seu trabalho na Rattapallax Press.
FR
- Faz dois anos que colaboro com a Rattapallax
Press, preparando, com o poeta Edwin Torres e a pedido
do publisher Ram Devineni, uma antologia de nova poesia
brasileira e americana, intitulada "Cities of Chance"
(com a parte brasileira bilíngüe). Seleções da antologia
estão sendo publicadas em março próximo, nos Estados
Unidos, numa edição especial da revista literária Rattapallax.
Faremos uma leitura no Baruch College, em Nova York,
no do dia 19 de março, durante o evento Poetry Day (da
UNESCO), com a presença de Robert Creeley, Marilyn Hacker,
Amiri Baraka e Vijay Seshadri, entre outros. Está sendo
agendado para junho o lançamento da Rattapallax no Brasil,
com distribuição pela Editora 34. Estamos começando
a organizar uma leitura em São Paulo, o espaço ainda
está para ser definido. A partir desse número, eu passo
a editar uma seção permanente, bilíngüe, de poesia brasileira
na Rattapallax. Um dos pontos interessantes do projeto
é a inclusão de um CD de poesia e música em todas as
edições. A edição brasileira/americana trará, além de
poetas, música eletrônica e MPB.
B
- Como anda a sua tese de mestrado para a Columbia
University?
FR
- A "tese" é um livro próprio de poemas. Tenho até outubro
para terminar. Vou ter de escrever muito ainda, e remexer
no que já existe… É um processo interessante e doloroso.
Vou incluir poemas em português e inglês e, possivelmente,
traduções.
B
- Fale um pouco sobre o ambiente literário
em Nova York: como a poesia é vista nos EUA? É possível
viver de poesia na terra do Tio Sam?
FR
- Nem aqui poeta consegue viver de poesia.
A maioria sobrevive dando aulas em universidades, o
que não é uma má combinação. As universidades americanas
pagam bem e dão todo o espaço necessário para a criação
literária. Nova York é uma cidade pulsante e, de muitos
ângulos que se avalie, o maior centro editorial do mundo.
A impressão que dá é que existe espaço para todo mundo,
da editora independente à comercial, do poeta iniciante
ao vinte vezes premiado. O resultado é um excesso de
informação, que acaba diluída. É difícil acompanhar
tudo o que acontece na cena literária americana. Algumas
revistas e editoras acabam ditando o que significa ser
um poeta de sucesso: a The New Yorker, por exemplo,
ou os jornais Paris Review, Chain, Fence, entre outros
— que são lidos com atenção. São dezenas de leituras
e saraus literários em toda a cidade, todos os dias,
quase sempre divididos nas seguintes categorias: poesia,
ficção e não-ficção. Também existem os eventos de apelo
mais popular, como os de slam poetry, organizados na
forma de concurso de poesia falada, com pequeno prêmio
em dinheiro. Recentemente, a Poetry Magazine recebeu
a doação de um milhão de dólares — um escândalo no mundo
da poesia — a revista vai de vento em popa.
B
- Você publica em diversas revistas brasileiras.
Sobre o quê gosta de escrever? Como é o seu trabalho
diário?
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FR
- Gosto de escrever sobre assuntos de cultura,
principalmente teatro, cinema e literatura, e também
assuntos de política. Meu trabalho diário é bem caótico.
Um dia por semana faço um estágio na editoria de poesia
da The New Yorker; tenho aulas três vezes por semana,
para as quais tenho de escrever poemas e outros textos,
além das leituras; o resto do tempo trabalho como jornalista
free-lancer, e faço esparsas traduções. Venho improvisando
por dois anos…
B
- Você entrevistou gente como Alanis Morrisette,
Paul Auster, Michael Cunningham, John Ashbery, Billy
Collins. São gente como a gente? Fale-nos das suas entrevistas.
FR
- Fazer entrevistas e perfis é talvez o que
mais gosto em jornalismo. Sou fascinada pelos textos
do americano Joseph Mitchell, que por muitos anos trabalhou
na The New Yorker. Ele passava um longo tempo estudando
os personagens que iria perfilar na revista, muitas
vezes gente comum, que ele encontrava na rua, nos recantos
de uma cidade que conhecia tão bem. Essas histórias
pessoais, nas mãos de Mitchell, transformavam-se em
emblemas de uma sociedade eclética, em constante formação.
Escritores e artistas são gente cujas histórias pessoais
e o modo como pensam, interessam a todo mundo. Eles
têm um poder de comunicação extraordinário, mesmo quando
visivelmente tímidos, como John Ashbery, ou cautelosos,
como Alanis Morrissete (que não se deixa ser fotografada,
a não ser produzida e controla todas as imagens que
saem na mídia). Billy Collins é extremamente afável
e foi buscar a mim e ao Ram Devineni na estação de trem
próximo à pequena cidade onde vive — Somers, NY — na
companhia de seu simpático cão. Paul Auster e Michael
Cunningham são generosos com a imprensa e acessíveis
e parecem incansáveis, pelo volume de artigos que produzem,
aparições públicas, etc. Se levarmos em conta Joseph
Mitchell, sim, são gente como a gente.
Entrevista
concedida a Rodrigo de Souza Leão.
Poemas
de Flávia Rocha
algas à noite
O
farol no fim da península,
dois vultos parados,
a sugestão de um beijo:
tronco retorcido caído na areia,
as raízes expostas como cabelos ao vento.
Noite
sem vento.
O mar recolhe aos pés a noção de distância.
Caminho em direção ao mar
e para fora do ângulo do beijo.
As mãos em concha, encho-as
com água escura:
uma
alga flutua no vazio.
maçã
sobre a mesa
........................... A Clarice Lispector
Um
golpe de vento amarrotou a toalha de linho,
debaixo da maçã, sobre a mesa.
..................Duas horas
de atraso, a ausência
de vapores. Os odores dos temperos suspensos.
Adiavam a vinda, sem se dar conta
de que as luzes alteram a mesa —
.................. sem sombra,
.................. a maçã no escuro.
aqui
é outro lugar
Duas
janelas se abrem
simultaneamente:
uma para o espaço
cuneiforme
entre duas montanhas,a
outra para uma árvore
altíssima, em arco,
resistindo ao vento.
E
o vento sem soprar,
e as estradas desviadas
levando aos mesmos lugares,
mas ninguém passa,
ninguém passa.
Solidão:
um fantoche
pendurado num galho,
um fruto caído
e aberto no chão.
O fantoche, se ventasse,
também cairia.
Havia
um fantoche
igual a esse
na minha gaveta
rosa e branca,
no quarto
com vestidos minúsculos.
Não
existiam estradas
ao redor,
só um espaço
entre montanhas,
e duas janelas largas
abertas no quarto.
casa
dos avós
Um
tronco de árvore atravessado no quintal —
os homens, exaustos
em mangas-de-camisa,
gesticulam apontando para o tronco.
Na
casa em silêncio,
miniaturas espalhadas pelo chão, deixadas ali
por oito crianças vestidas de preto.
Um
dos meninos (meu pai)
passa correndo, agarra um soldado,
e o faz voar janela afora
para dentro da floresta tropical.
Nunca
vira homens tão fortes.
Eles falavam em construir um caixão.
reticences
Red
umbrella
on Goeldi’s woodcut.
A lonely man, twisted trees.
Then
you around the corner,
opening my cupboards, looking
for what you have probably missed.
It’s
there. In your hands.
You already hold it.
Let’s
take the next train,
There’s no reason to arrive before noon.
Behind
moving windows,
trees aren’t so twisted.
Every mile will show a man.
Noon.
Cut in red wood,
a cupboard open, red umbrella.
Standing next to it,
Goeldi.
You. The lonely man.
o
rio
1.
Tangente
O som do rio
abafa o zunido de uma abelha
sobre flores pequenas na outra margem.
Epicentro
No bananal, sombra ao meio-dia,
bananas ainda verdes.
Tangente
A criança vai à frente, descalça, distraída
colhendo pequenas flores brancas,
que crescem em mato cortante.
Epicentro
Bananas maduras nos mercados
e flores pequenas para um buquê.
2.
Tangente
O anel brilha na mão
segurando o buquê. Carrega-o
sem esforço, para onde quer que vá.
Epicentro
A mesa está posta: mel, leite, cereal
e bananas. Flores brancas num vaso.
Tangente
Pela janela,
vê-se o apartamento oposto ao nosso;
uma criança dorme.
Epicentro
É meio dia, o sol alto.
Nosso prédio na sombra de outro.
3.
Tangente
Ruído de chaves na fechadura.
As luzes apagadas,
as janelas esquecidas abertas.
Epicentro
Noite sobre o bananal.
Na rua, andamos mais devagar.
Tangente
As fachadas vão perdendo
contraste. Uma curva à esquerda.
Nunca fizemos este caminho.
Epicentro
À noite, as ruas se parecem.
O som do rio corta o bananal.
4.
Tangente
Detrás de um vitral, à entrada
do prédio, um desconhecido assobia.
Não nos vê entrar.
Epicentro
A mesa desfeita: mel, leite, cereal
cascas de bananas e farelos de pão.
Tangente
As flores, amareladas, começam
a murchar. Do prédio oposto,
a criança nos observa.
Epicentro
Nuvens pesadas sobre o bananal.
Chuva sobre a cidade.
by Rodrigo
de Souza Leão
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