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Flávia Rocha Flávia Rocha (Editor) is a Brazilian poet, journalist and translator living in Curitiba. In São Paulo, she worked as a staff reporter for magazines Casa Vogue, Carta Capital, República, Valor Econômico and Bravo!, and was a contributor for other publications, including MTV magazine, Vogue and Sabor. She has an M.F.A program in Writing at Columbia University and was the co-editor, with Edwin Torres, of Cities of Chance: an Anthology of New Poetry from the United States and Brazil. She co-founded Acedemia Internacional de Cinema in Sao Paulo. Her first collection of poetry, The Blue House Around Noon was released by Travessa dos Editores in 2004.

Flávia Rocha é uma das editoras da revista norte-americana Rattapallax. Em Nova Iorque, fez mestrado em criação literária na Columbia University, e trabalhou na editoria de poesia da revista The New Yorker . Em São Paulo, passou pelas redações das revistas Bravo!, República, Carta Capital e Casa Vogue, e foi colaboradora de diversas publicações . Seus poemas, traduções e ensaios foram publicados e premiados nacional e internacionalmente. Desde abril de 2004, integra a equipe editorial da Travessa dos Editores, por onde saiu seu primeiro livro de poemas A casa azul ao meio-dia . Na área de cinema, é co-fundadora da Academia Internacional de Cinema.

Flavia Rocha's The Blue House Around Noon reflects how the complex resides in the simple. And, thus, this marvelous first collection of poems is beautifully deceptive in its compressed lyricism: what seems familiar is also otherworldly, and what appears out-of-this-world also conveys the music of one's own heartbeat. The Blue House Around Noon is magical and real, fully engaging, and most of the poems demand that we cross borders in the mind and the flesh. -- Yusef Komunyakaa, winner of the Pulitzer Prize.

A Casa Azul ao Meio-Dia ( The Blue House Around Noon ) é o livro de estréia de Flávia Rocha. Os poemas foram escritos durante o período em que ela morou em Nova Iorque, de setembro de 2000 a janeiro de 2004, e como resultado de mestrado em poesia na Columbia University. Escrito em duas línguas, os poemas refletem a busca por uma linguagem própria e livre dos vestígios de tradução. O livro está dividido em quatro capítulos, sendo três bilíngües e um inteiramente em inglês. Com fotografias de Fernanda Rocha.

Rocha Book

Poetry Wales

Poetry Wales edited by Flávia Rocha & Robert Minhinnick featuring poetry from Ferreira Gullar, Augusto de Campos, Armando Fretis, Filho Paulo, Henriques Britto, Claudia Roquette-Pinton, Carlito Azevedo, Peter Finch, Chris Bendon, Samantha Wynne-Rhydderch, John Barnie, Anna Sian, Lewis Kerry, Shawn Keys, John Redmond, Richard Poole Shuttle, Peter Redgrove, Pascale Petit, Jussara Salazar, Rodrigo Garcia Lopes, Flavia Rocha, and Ricardo Aleixo.

Articles and poems by Flavia Rocha:
Interview with Ferreira Gullar (The Chattahoochee Review)
Poems in Guernica Magazines
Article on 9/11 in Jacket magazine.

Balacobaco ano VI - número 61 - Rio de Janeiro, 6 de abril de 2003.

ENTREVISTA COM FLÁVIA ROCHA

Flávia Rocha por Flávia Rocha

Tenho 28 anos, moro em NY há dois anos e meio, sou casada com um americano, vivo estudando, escrevendo matérias e fazendo entrevistas para a imprensa brasileira, editando uma antologia de poetas brasileiros e outras coisinhas, fazendo umas traduções e realizando um estágio na editoria de poesia da revista The New Yorker, o que tem sido uma experiência maravilhosa. Tenho tido a oportunidade de encontrar e ir a leituras de muitos poetas interessantes, maiores e menores (o Matias Mariane também deve ter muito para falar sobre isso. Eu o conheci numa festa da Sibila no bar KGB, no East Village).

Trabalhei (e ainda trabalho) como jornalista no Brasil: repórter para Casa Vogue, Carta Capital, República e Bravo! e free-lancer para Vogue, Casa Vogue (sempre continuei escrevendo para eles), revista da MTV, caderno de cultura do Valor Econômico, Cult.


Aqui entrevistei gente como Alanis Morrisette, Paul Auster, Michael Cunningham, John Ashbery, Billy Collins e pretendo fazer mais entrevistas, assim que eu me formar e tiver mais tempo.

B - A solidão é um fantoche pendurado no galho? O poeta precisa da solidão para escrever?


FR - Toda atividade literária é solitária, no sentido mais abrangente possível da noção de solidão. É uma atividade autocentrada, a partir do ponto de vista do autor (não necessariamente sobre o autor). Poetas tendem a valorizar suas experiências de infância, aproximar-se de um estado pré-consciente, auto-referente, narcisístico até, em que a vida é experimentada pelo corpo e pela alma, simultaneamente (falo de corpo/alma como símbolos do físico/psíquico, não no sentido religioso). Na vida adulta, nossas inibições causam, supostamente, uma ruptura entre corpo e alma — uma idéia freudiana. Em "Songs of Innocence and of Experience", Blake nos dá uma idéia do que é esse paraíso infantil, por que todos nós passamos (e depois deixamos), e que um dia nos permitiu o contato direto com o mundo natural e físico. Quando me refiro ao fantoche, e aos vestidos minúsculos, refiro-me a esse estado solitário ideal, encontrado somente na infância. Nossa percepção do mundo é o mundo que nosso corpo/alma sente. Nossa relação com o outro é limitada ao que o outro nos representa e nos acrescenta. Isso soa como uma concepção altamente narcisística, mas é possível que seja verdade: o poeta é um fingidor, nós já sabemos. Ao fingir-se outro, reinventa-se. O processo é sempre autocentrado. Quando o poeta deixa de ser poeta — várias vezes durante o dia — torna-se uma pessoa sociável.

B - Há muitos troncos de árvores atravessados em sua poesia? Qual a metáfora possível para estes troncos?


FR - Talvez seja o símbolo de uma morte inocente, inexplicável. Para mim, um tronco cortado — a solene morte de uma árvore — é uma imagem profundamente triste, um sentimento de perda irreparável. Tronco também representa experiência e história. Todas as camadas que se formam ao longo dos anos, maciças, que registram a idade de cada árvore. Uma vez, quando estava no colegial, meu professor de redação pediu que escrevêssemos um texto narrado sob a perspectiva de um cajueiro. Foi uma das experiências mais reveladoras que já me aconteceram, como se tivesse me sido mostrado um atalho, uma fórmula de comunicação com o mundo natural. Eu precisei ver com olhos de cajueiro e sentir o que cajueiro sente. Eu entendi perfeitamente o que significa escrever ficção. Tudo o que escrevo é ficcional, algumas vezes com base no real, como o poema que você menciona, "Casa dos Avós". Meus avós, que não cheguei a conhecer, moravam no Vale do Ribeira, em São Paulo, uma área de floresta. Uso um pouco desse imaginário, das histórias de infância do meu pai, das árvores que não conheci pessoalmente.

B - A natureza é um elemento muito forte da sua poesia? Qual a função de uma imagética naturalista para uma poética?


FR - Existe essa obsessão de poetas líricos pela natureza… Eu me vejo, muitas vezes, tentando escrever algo mais urbano, concreto, desconstrutivista, tentando explorar as possibilidades estilísticas e conceituais mais facilmente associadas à poesia contemporânea. Mas sempre retorno à natureza, quase contra as próprias forças, já que nasci e cresci em centros urbanos. Ainda não consegui explorá-la de uma maneira mais satisfatória, energética. Há muitos poetas contemporâneos que o fazem inteligentemente. Eu continuo tentando. Talvez seja o peso da tradição, a carga intuitiva, simbólica, metafísica envolvida. Talvez seja o silêncio. É onde está o silêncio.

B - Por que escreve poemas em inglês?

FR - Estou tendo um longo namoro com a língua, que está presente no meu dia-a-dia. Sou casada com um americano, além de estar cursando um mestrado em criação literária, em inglês. O mestrado é, naturalmente, uma experiência no fio da navalha. Ainda não sei se é possível escrever em outra língua que não a nossa língua nativa. Estou buscando respostas, arriscando muito. Por enquanto, posso dizer que tem sido um exercício estimulante. Muito se perde, muito se aprende. Meus poemas em inglês são experimentos. Sou facilmente surpreendida na língua inglesa. É como andar numa rua escura, sem meus óculos de grau.

B - O poema "O Rio" tem duas vozes: a tangente, o epicentro. O que tangencia o epicentro? Fale-nos sobre o poema.


FR - Quando comecei a escrever "O Rio", há aproximadamente um ano, esta era a única noção que tinha do que viria a ser: um poema em dois movimentos: um periférico, tangencial, e outro essencial, central. Escolhi o termo "tangente" (sempre fui fascinada por essa idéia matemática, altamente poética), partindo do princípio de que, a certo momento, precisa haver um contato, um ponto tangencial entre essas duas esferas de atuação. Todos os pequenos detalhes periféricos do nosso cotidiano tangenciam nossas principais atividades e preocupações e interferem no modo como levamos as nossas vidas. O acúmulo desses detalhes ajuda a definir o caráter do que entendemos como relevante, aquilo que forma a nossa história. Já o termo "epicentro" carrega a idéia de movimento, de força, de atividade sendo gerada, o que me parecia fundamental na discussão que eu estava propondo. Ritmicamente falando, eu queria que fosse um poema sem muitos altos e baixos, sem drama, que corresse como um rio de águas tranqüilas. Estava mais interessada num texto impressionista do que filosófico ou dramático, um texto que fundisse o natural e o urbano, sem realçar o contraste entre os dois universos. Acabei escrevendo um poema fragmentário, com uma vaga narrativa dando a continuidade ao fluir do rio. Provavelmente, quieto demais…

B - No poema "Bailarinas" você cita Nabokov. Quais são as suas influências literárias?

FR - Sou uma leitora voraz de romances, principalmente do século 19 e começo do século 20. Não perco um filme de época. Mas, falando mais seriamente… considero-me autodidata. Cursei jornalismo, que não enfatiza literatura. E estou ainda tentando recuperar tempo. Lembro-me de ter lido, por conta própria, na época de faculdade, os cânones: Balzac, Proust, Mann (Morte em Veneza está sempre nos meus pensamentos), Checkov, Stendhal, Kafka, Cortázar, Joyce, entre outros. Li Nabokov (Lolita é outro livro que não me deixa) mais atentamente em aulas da Columbia University — aliás, para o poeta e tradutor Richard Howard, com quem tive aulas sobre Nabokov (Howard foi aluno de Nabokov), Lolita é o maior romance escrito em língua inglesa do século 20. Ele tenta convencer todo mundo disso. Acho que me convenceu. Gosto de ler peças teatrais e, naturalmente, poesia. São muitos os poetas. Em português, Drummond, João Cabral, Quintana, Pessoa são adorados, muitos outros amados. Em inglês, Whitman, Stevens, Bishop, Rossetti, Dickinson, Ashbery… Em outras línguas, Lorca, Milosz, Szymborska, Montale…

B - Perguntas sobre o cotidiano: fale um pouco do seu trabalho na Rattapallax Press.

FR - Faz dois anos que colaboro com a Rattapallax Press, preparando, com o poeta Edwin Torres e a pedido do publisher Ram Devineni, uma antologia de nova poesia brasileira e americana, intitulada "Cities of Chance" (com a parte brasileira bilíngüe). Seleções da antologia estão sendo publicadas em março próximo, nos Estados Unidos, numa edição especial da revista literária Rattapallax. Faremos uma leitura no Baruch College, em Nova York, no do dia 19 de março, durante o evento Poetry Day (da UNESCO), com a presença de Robert Creeley, Marilyn Hacker, Amiri Baraka e Vijay Seshadri, entre outros. Está sendo agendado para junho o lançamento da Rattapallax no Brasil, com distribuição pela Editora 34. Estamos começando a organizar uma leitura em São Paulo, o espaço ainda está para ser definido. A partir desse número, eu passo a editar uma seção permanente, bilíngüe, de poesia brasileira na Rattapallax. Um dos pontos interessantes do projeto é a inclusão de um CD de poesia e música em todas as edições. A edição brasileira/americana trará, além de poetas, música eletrônica e MPB.

B - Como anda a sua tese de mestrado para a Columbia University?

FR - A "tese" é um livro próprio de poemas. Tenho até outubro para terminar. Vou ter de escrever muito ainda, e remexer no que já existe… É um processo interessante e doloroso. Vou incluir poemas em português e inglês e, possivelmente, traduções.

B - Fale um pouco sobre o ambiente literário em Nova York: como a poesia é vista nos EUA? É possível viver de poesia na terra do Tio Sam?

FR - Nem aqui poeta consegue viver de poesia. A maioria sobrevive dando aulas em universidades, o que não é uma má combinação. As universidades americanas pagam bem e dão todo o espaço necessário para a criação literária. Nova York é uma cidade pulsante e, de muitos ângulos que se avalie, o maior centro editorial do mundo. A impressão que dá é que existe espaço para todo mundo, da editora independente à comercial, do poeta iniciante ao vinte vezes premiado. O resultado é um excesso de informação, que acaba diluída. É difícil acompanhar tudo o que acontece na cena literária americana. Algumas revistas e editoras acabam ditando o que significa ser um poeta de sucesso: a The New Yorker, por exemplo, ou os jornais Paris Review, Chain, Fence, entre outros — que são lidos com atenção. São dezenas de leituras e saraus literários em toda a cidade, todos os dias, quase sempre divididos nas seguintes categorias: poesia, ficção e não-ficção. Também existem os eventos de apelo mais popular, como os de slam poetry, organizados na forma de concurso de poesia falada, com pequeno prêmio em dinheiro. Recentemente, a Poetry Magazine recebeu a doação de um milhão de dólares — um escândalo no mundo da poesia — a revista vai de vento em popa.

B - Você publica em diversas revistas brasileiras. Sobre o quê gosta de escrever? Como é o seu trabalho diário?

FR - Gosto de escrever sobre assuntos de cultura, principalmente teatro, cinema e literatura, e também assuntos de política. Meu trabalho diário é bem caótico. Um dia por semana faço um estágio na editoria de poesia da The New Yorker; tenho aulas três vezes por semana, para as quais tenho de escrever poemas e outros textos, além das leituras; o resto do tempo trabalho como jornalista free-lancer, e faço esparsas traduções. Venho improvisando por dois anos…

B - Você entrevistou gente como Alanis Morrisette, Paul Auster, Michael Cunningham, John Ashbery, Billy Collins. São gente como a gente? Fale-nos das suas entrevistas.

FR - Fazer entrevistas e perfis é talvez o que mais gosto em jornalismo. Sou fascinada pelos textos do americano Joseph Mitchell, que por muitos anos trabalhou na The New Yorker. Ele passava um longo tempo estudando os personagens que iria perfilar na revista, muitas vezes gente comum, que ele encontrava na rua, nos recantos de uma cidade que conhecia tão bem. Essas histórias pessoais, nas mãos de Mitchell, transformavam-se em emblemas de uma sociedade eclética, em constante formação. Escritores e artistas são gente cujas histórias pessoais e o modo como pensam, interessam a todo mundo. Eles têm um poder de comunicação extraordinário, mesmo quando visivelmente tímidos, como John Ashbery, ou cautelosos, como Alanis Morrissete (que não se deixa ser fotografada, a não ser produzida e controla todas as imagens que saem na mídia). Billy Collins é extremamente afável e foi buscar a mim e ao Ram Devineni na estação de trem próximo à pequena cidade onde vive — Somers, NY — na companhia de seu simpático cão. Paul Auster e Michael Cunningham são generosos com a imprensa e acessíveis e parecem incansáveis, pelo volume de artigos que produzem, aparições públicas, etc. Se levarmos em conta Joseph Mitchell, sim, são gente como a gente.

Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão.

Poemas de Flávia Rocha


algas à noite

O farol no fim da península,
dois vultos parados,
a sugestão de um beijo:
tronco retorcido caído na areia,
as raízes expostas como cabelos ao vento.

Noite sem vento.
O mar recolhe aos pés a noção de distância.
Caminho em direção ao mar
e para fora do ângulo do beijo.
As mãos em concha, encho-as
com água escura:

uma alga flutua no vazio.

maçã sobre a mesa

........................... A Clarice Lispector

Um golpe de vento amarrotou a toalha de linho,
debaixo da maçã, sobre a mesa.
..................Duas horas de atraso, a ausência
de vapores. Os odores dos temperos suspensos.
Adiavam a vinda, sem se dar conta
de que as luzes alteram a mesa —
.................. sem sombra,
.................. a maçã no escuro.

aqui é outro lugar

Duas janelas se abrem
simultaneamente:
uma para o espaço
cuneiforme
entre duas montanhas,a
outra para uma árvore
altíssima, em arco,
resistindo ao vento.

E o vento sem soprar,
e as estradas desviadas
levando aos mesmos lugares,
mas ninguém passa,
ninguém passa.

Solidão: um fantoche
pendurado num galho,
um fruto caído
e aberto no chão.
O fantoche, se ventasse,
também cairia.

Havia um fantoche
igual a esse
na minha gaveta
rosa e branca,
no quarto
com vestidos minúsculos.

Não existiam estradas
ao redor,
só um espaço
entre montanhas,
e duas janelas largas
abertas no quarto.

casa dos avós

Um tronco de árvore atravessado no quintal —
os homens, exaustos
em mangas-de-camisa,
gesticulam apontando para o tronco.

Na casa em silêncio,
miniaturas espalhadas pelo chão, deixadas ali
por oito crianças vestidas de preto.

Um dos meninos (meu pai)
passa correndo, agarra um soldado,
e o faz voar janela afora
para dentro da floresta tropical.

Nunca vira homens tão fortes.
Eles falavam em construir um caixão.

reticences

Red umbrella
on Goeldi’s woodcut.
A lonely man, twisted trees.

Then you around the corner,
opening my cupboards, looking
for what you have probably missed.

It’s there. In your hands.
You already hold it.

Let’s take the next train,
There’s no reason to arrive before noon.

Behind moving windows,
trees aren’t so twisted.
Every mile will show a man.

Noon. Cut in red wood,
a cupboard open, red umbrella.
Standing next to it,

Goeldi. You. The lonely man.

o rio

1.

Tangente
O som do rio
abafa o zunido de uma abelha
sobre flores pequenas na outra margem.

Epicentro
No bananal, sombra ao meio-dia,
bananas ainda verdes.


Tangente

A criança vai à frente, descalça, distraída
colhendo pequenas flores brancas,
que crescem em mato cortante.

Epicentro
Bananas maduras nos mercados
e flores pequenas para um buquê.

2.

Tangente
O anel brilha na mão
segurando o buquê. Carrega-o
sem esforço, para onde quer que vá.

Epicentro
A mesa está posta: mel, leite, cereal
e bananas. Flores brancas num vaso.

Tangente
Pela janela,
vê-se o apartamento oposto ao nosso;
uma criança dorme.

Epicentro
É meio dia, o sol alto.
Nosso prédio na sombra de outro.

3.

Tangente
Ruído de chaves na fechadura.
As luzes apagadas,
as janelas esquecidas abertas.


Epicentro
Noite sobre o bananal.
Na rua, andamos mais devagar.

Tangente
As fachadas vão perdendo
contraste. Uma curva à esquerda.
Nunca fizemos este caminho.

Epicentro
À noite, as ruas se parecem.
O som do rio corta o bananal.

4.

Tangente
Detrás de um vitral, à entrada
do prédio, um desconhecido assobia.
Não nos vê entrar.

Epicentro
A mesa desfeita: mel, leite, cereal
cascas de bananas e farelos de pão.

Tangente
As flores, amareladas, começam
a murchar. Do prédio oposto,
a criança nos observa.

Epicentro
Nuvens pesadas sobre o bananal.
Chuva sobre a cidade.

 

by Rodrigo de Souza Leão